Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) revelou que o iFood movimentou R$ 167 bilhões na economia brasileira em 2023. O montante ultrapassa o Produto Interno Bruto de seis estados do país, gerando mais de 1,5 milhão de postos de trabalho diretos e indiretos.
O levantamento detalhado realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) dimensionou a magnitude do impacto econômico produzido pelas operações da plataforma de entregas iFood no território nacional. Com uma movimentação financeira bruta estimada em R$ 167 bilhões ao longo de um período de doze meses, a empresa de tecnologia e logística não apenas consolidou sua posição liderança no segmento de intermediação de refeições e compras, mas também ultrapassou a soma das riquezas produzidas individualmente por seis unidades da federação. A dimensão dos números evidencia a transformação estrutural ocorrida no padrão de consumo das famílias brasileiras e na dinâmica operacional do comércio varejista de alimentos.
A abrangência da pesquisa detalha como os recursos que trafegam pelo aplicativo se desdobram em uma extensa cadeia de valor, beneficiando fornecedores de insumos, fabricantes de embalagens, distribuidores de hortifrúti e prestadores de serviços de transporte. Esse fluxo financeiro contínuo e descentralizado injeta capital diretamente nas economias locais de milhares de municípios brasileiros, estabelecendo uma rede interdependente que vai desde a produção agrícola no campo até a entrega final ao consumidor urbano em centros metropolitanos e cidades do interior.
A relevância do indicador torna-se ainda mais nítida ao comparar a movimentação do aplicativo com os dados oficiais das contas regionais apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O montante de R$ 167 bilhões equivale a aproximadamente 0,5% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no período analisado, confirmando o papel do setor de serviços baseados em tecnologia como um dos principais motores de aceleração econômica contemporânea no país.
Radiografia econômica: como o ecossistema do iFood atingiu R$ 167 bilhões
O relatório elaborado pelos economistas da Fipe adotou uma metodologia fundamentada na matriz de insumo-produto para mensurar não apenas os valores diretos das vendas efetuadas na plataforma, mas também os efeitos indiretos e induzidos em toda a economia nacional. A movimentação global de R$ 167 bilhões compreende o faturamento bruto dos estabelecimentos parceiros, a remuneração repassada aos entregadores, as receitas operacionais da própria empresa de tecnologia e os investimentos em infraestrutura digital.
Entre as seis unidades federativas cujas riquezas anuais foram superadas pela movimentação da empresa, figuram estados de diferentes regiões do país. O montante absoluto de R$ 167 bilhões é superior ao PIB individual de Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Sergipe e Rondônia. A comparação ilustra a escala continental alcançada pelo ecossistema digital, que opera como um polo econômico virtual com capacidade de faturamento comparável à atividade produtiva integrada de estados inteiros.
“O impacto do delivery vai muito além da entrega de refeições; trata-se de um motor de inclusão digital e giro de capital para micro e pequenas empresas em todas as regiões do país”, disse Diego Barreto, CEO do iFood. Segundo o executivo, a escala alcançada pela companhia traz consigo a responsabilidade de manter investimentos constantes em inovação tecnológica, suporte aos parceiros comerciais e aprimoramento contínuo das condições de trabalho na cadeia de entregas.
A análise metodológica da Fipe demonstrou também a existência de um elevado efeito multiplicador na economia brasileira. Para cada R$ 10,00 gastos por consumidores dentro da plataforma, são gerados aproximadamente R$ 25,00 em atividade econômica total ao longo de toda a cadeia de suprimentos. Isso ocorre porque os restaurantes utilizam as receitas obtidas nas vendas digitais para comprar ingredientes de produtores locais, pagar salários de colaboradores, contratar serviços de manutenção e adquirir embalagens e equipamentos.
- Movimentação econômica total: R$ 167 bilhões distribuídos entre vendas diretas, compras de insumos e efeito multiplicador na cadeia produtiva.
- Equivalência no PIB nacional: O ecossistema responde por aproximadamente 0,5% de toda a produção de bens e serviços do Brasil.
- Comparativo estadual: O valor movimentado superou o Produto Interno Bruto de seis estados (Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Sergipe e Rondônia).
- Efeito multiplicador: Cada real movimentado na plataforma gera um impulso expandido de R$ 2,50 na economia nacional.
Impacto no setor de bares, restaurantes e pequenos negócios
A digitalização acelerada do setor de alimentação fora do lar encontrou no aplicativo um canal prioritário de expansão comercial. De acordo com o mapeamento da Fipe, mais de 80% dos estabelecimentos comerciais cadastrados na plataforma enquadram-se na categoria de micro, pequenas e médias empresas (PMEs). Para milhares desses empreendedores, o canal digital deixou de ser uma ferramenta acessória para se transformar na principal fonte de faturamento e sustentabilidade financeira do negócio.
O estudo destaca que a presença no aplicativo permitiu a ampliação do raio de atendimento de bares e restaurantes, que anteriormente ficavam restritos ao público frequentador do seu entorno imediato. A expansão do alcance geográfico possibilitou o surgimento e a consolidação das chamadas “dark kitchens” — cozinhas voltadas exclusivamente para o preparo de pedidos de entrega rápida, sem estrutura para atendimento presencial —, reduzindo custos fixos com locação e equipe de salão.
“A pesquisa demonstra que a plataforma atua como uma alavanca para o comércio local, permitindo que pequenos estabelecimentos ampliem seu faturamento e contratem mais pessoal”, disse Eduardo Zylberstajn, pesquisador e economista da Fipe responsável pela coordenação do estudo. O especialista ressaltou que a inclusão tecnológica de estabelecimentos de bairro representou um salto de produtividade e modernização operacional para todo o setor de serviços.
A demanda por insumos agrícolas e industriais gerada pela expansão do delivery também impulsionou os setores primário e secundário da economia. O aumento no volume de refeições preparadas exigiu um fluxo constante de compra de carnes, laticínios, hortaliças e embalagens sustentáveis. Esse efeito encadeado garantiu estabilidade orçamentária para pequenos produtores rurais e distribuidores regionais que fornecem insumos para a rede de restaurantes cadastrados.
Trabalho por plataformas e a geração de renda no Brasil
Outro pilar central analisado pelo levantamento da Fipe é o impacto socioeconômico na geração de postos de trabalho e oportunidades de renda. O ecossistema da plataforma suporta direta e indiretamente mais de 1,5 milhão de postos de trabalho em todo o território nacional. Esse contingente abrange desde os funcionários contratados formalmente por restaurantes e cozinhas até os entregadores parceiros autônomos e os profissionais especializados em desenvolvimento de software e logística.
O contingente de entregadores cadastrados e ativos no aplicativo ultrapassa a marca de centenas de milhares de condutores de motocicletas, bicicletas e veículos de passeio. Para uma parcela expressiva desses trabalhadores, a prestação de serviços de entrega via aplicativo representa a fonte primária de rendimento familiar, enquanto para outros funciona como uma complementação orçamentária indispensável em momentos de transição profissional ou busca por recolocação no mercado de trabalho formal.
A expansão do trabalho por intermediação digital trouxe para o centro do debate público nacional a necessidade de aprimoramento regulatório da atividade. Organizações sindicais, órgãos do Ministério do Trabalho e Emprego e o Congresso Nacional acompanham discussões sobre inclusão previdenciária, protocolos de segurança no trânsito, ganhos mínimos por hora lograda e criação de pontos de apoio físico para os entregadores nas grandes e médias cidades.
A empresa tem implementado fundos de assistência, seguros contra acidentes pessoais durante as rotas de entrega e parcerias para a oferta de cursos de capacitação profissional e educação financeira. No entanto, especialistas em políticas públicas ressaltam que o avanço contínuo do setor exige um diálogo permanente entre o poder público, as plataformas digitais e as representações de trabalhadores para harmonizar a flexibilidade operacional com a devida proteção social.
Reflexos do delivery no Norte de Minas e em Montes Claros
Na região do Norte de Minas Gerais, Montes Claros desponta como o principal polo econômico e urbano a vivenciar de forma intensa a expansão do modelo de entregas por aplicativo. Com uma população superior a 414 mil habitantes e um setor de serviços altamente dinâmico, o município viu o número de bares, restaurantes, lanchonetes e distribuidores integrados à plataforma crescer expressivamente nos últimos anos.
A dinâmica econômica local reflete os achados do estudo nacional da Fipe. Na região central de Montes Claros e ao longo de eixos gastronômicos consagrados, como a Avenida Deputado Esteves Rodrigues (Avenida Sanitária), dezenas de estabelecimentos adaptaram suas instalações com áreas exclusivas para a retirada de pedidos por entregadores. O fenômeno também se consolidou em bairros populosos como Major Prates, Renascença, Maracanã e Delfino Magalhães, onde pequenos empreendedores familiares encontraram no delivery a oportunidade de formalizar e expandir suas vendas.
Principais impactos observados no contexto regional do Norte de Minas:
- Inclusão digital no comércio regional: Pequenos restaurantes e produtores da culinária típica norte-mineira ganharam visibilidade e escala de vendas por meio da vitrine digital.
- Oportunidades de renda local: Centenas de jovens e trabalhadores autônomos de Montes Claros e cidades vizinhas como Janaúba e Pirapora encontram no aplicativo uma fonte imediata de geração de renda.
- Valorização da gastronomia regional: Pratos tradicionais à base de carne de sol, pequi, queijo artesanal e mandioca ganharam novos formatos de comercialização e entrega rápida.
- Dinamização da cadeia de serviços urbanos: Aumento na demanda por manutenção de motocicletas, venda de equipamentos de proteção individual e suprimentos de embalagens na região.
Além do polo de Montes Claros, cidades de médio porte do Norte de Minas, como Janaúba, Januária, Pirapora e Salinas, também registraram avanço gradual no uso de soluções digitais de entrega. Embora o volume absoluto de transações nesses municípios menores seja proporcionalmente mais modesto, a presença da tecnologia contribui para modernizar a prestação de serviços e criar alternativas de trabalho flexível em microrregiões marcadas historicamente pela busca de novas oportunidades econômicas.
Desafios operacionais e perspectivas futuras do setor
O crescimento acelerado do faturamento e da relevância econômica impõe desafios operacionais consideráveis para as empresas de tecnologia que lideram o mercado de entregas. Entre as prioridades apontadas pelo setor para os próximos anos estão a ampliação de iniciativas de sustentabilidade ambiental, como a meta de redução das emissões de carbono na frota de entregas e a substituição progressiva de embalagens plásticas por materiais biodegradáveis.
Outra frente de expansão estratégica reside na diversificação do portfólio de entregas para além das refeições prontas. A inclusão de redes de supermercados, farmácias, pet shops e estabelecimentos de comércio varejista tradicional dentro do aplicativo busca transformar a plataforma em um ecossistema multisserviços com entregas ultrarrápidas, aumentando a frequência de uso por parte dos consumidores em diferentes momentos do dia.
A integração de ferramentas avançadas de inteligência artificial e análise preditiva de dados deve otimizar ainda mais as rotas logísticas e a precificação dinâmica, reduzindo o tempo médio de espera e aumentando a eficiência operacional. O sucesso dessa evolução dependerá da capacidade de equilibrar a inovação tecnológica com a sustentabilidade financeira dos pequenos comércios parceiros e o bem-estar dos trabalhadores que viabilizam as operações diárias nas ruas.
Perguntas Rápidas
Qual foi o valor total movimentado pelo iFood na economia brasileira?
De acordo com o estudo da Fipe, a movimentação econômica total gerada pela plataforma atingiu R$ 167 bilhões em um período de 12 meses, somando vendas diretas, compras da cadeia e efeitos indiretos.
Quais estados têm o PIB superado pelo faturamento do iFood?
A movimentação financeira da plataforma superou o Produto Interno Bruto (PIB) individual de seis estados brasileiros: Roraima, Amapá, Acre, Tocantins, Sergipe e Rondônia.
Quantos empregos o ecossistema da plataforma suporta no Brasil?
O levantamento da Fipe calcula que o ecossistema do aplicativo sustenta diretamente e indiretamente mais de 1,5 milhão de postos de trabalho e oportunidades de renda no país.
Qual é a participação das pequenas empresas nesse mercado?
Mais de 80% dos estabelecimentos comerciais cadastrados na plataforma são micro, pequenas e médias empresas que utilizam o canal digital para ampliar seu alcance de vendas.
Fontes e documentos
- Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe): Estudo de Impacto Econômico do Ecossistema iFood no Brasil, coordenado pelo economista Eduardo Zylberstajn.
- iFood: Relatório de dados institucionais e declarações oficiais de Diego Barreto, CEO da companhia.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Contas Regionais do Brasil e estatísticas formais sobre o Produto Interno Bruto (PIB) dos estados.
- Ministério do Trabalho e Emprego (MTE): Painéis e debates sobre a regulamentação do trabalho intermediado por plataformas digitais no país.